Objeto: bacia e ferro de passar

Ano: 2023

Região: Paranoá

História:
Antigamente, quase 60 anos atrás, quando a gente invadiu, aqui no Paranoá não tinha nada. Nada, nada, nada… Para a gente buscar água, se quisesse beber água, tinha que enfrentar um pinheiro e pegar água lá no Rio dos Goianos. Muita gente não tinha lata, nem carrinho, nem balde… Uns pegavam esse balde aqui (pega o balde que está em cima da mesa), fazia uma trouxa e colocava na cabeça.
Teve uma vez, um certo dia, todo mundo foi buscar água, os carrinhos de água, mas começou a escurecer e começava uma nervosia nos pinheiros (balança a mão imitando os pinheiros) “tchã tchã tchã tchã”. O povo começava a olhar para trás… Só sei que o pessoal começou a endurecer carregando essas latas d’água na cabeça, os braços endureciam.
Quando chegava no ponto em que a gente estava morando, fazendo aquelas barraquinhas de papelão e de plástico (muita gente aqui sabe, né?), chegava um tiquinho de água. Cada um pegava pinguinho de água e molhava o bico, porque não tinha como beber.
Eu, como não sabia o que estava acontecendo comigo, caí ajoelhada. Para o povo me tirar o balde da minha cabeça foi uma luta, eu ajoelhei no chão, mas não soltei a lata! E todo mundo veio: “Vamos tirar, mas vamos devagar para não quebrar o braço dela.” E me tiraram a lata. [risadas].
Antigamente não tinha aqueles negócios de chapa ou secador, né? A minha filha tem quase 40 anos hoje, mas quando ela se formou na quarta série, tinha que todo mundo ir arrumado e de branco. Falei: “Pronto, agora que lascou, onde é que eu vou comprar uma roupa branca? Onde é que eu vou arrumar esse cabelo?”, porque o cabelo dela era bem grandão.
Aí a gente tinha um ferro de brasa, aquele de brasa bem grandão. Aí peguei, fui lá no quintal, botei uns paus para queimar e botei dentro do ferro. Aí eu falei assim: -“Menina, vem cá, bota o cabelo aqui em cima, bota o cabelo aqui em cima da mesa”. Aí eu peguei um pano bem fininho, peguei o cabelo dela e saí, “tch”, esticando. A minha menina foi a mais bonita daquele tempo! O cabelo ficou esticado que foi uma beleza. E hoje ela: “Mãe, a senhora ainda lembra daquela história?” Eu lembro que fui eu que fiz. Naquela época não tinha chapinha. Se quisesse o cabelo esticado, era a ferro! E olha lá, hein!
[Colega fala:] – “Ainda passava brilhantina.” Não! Naquele tempo não tinha muito esse negócio de história de xampu, de creme, não… Sabe qual era o creme das minhas filhas que eu lavava a cabeça delas? Banha de galinha! E o cabelo crescia que era uma benção! [burburinho das outras mulheres concordando]