Objeto: máquina de costura, lamparina

Ano: 2023

Região: Bandeirante

História:
Tem muitas coisas aqui que me recordam do meu tempo de jovem. Ainda peguei muitas coisas, como essa máquina de costura, como o candeeiro que há 45 anos atrás eu ainda cheguei a usar. Eu tenho 59 anos e, no meu tempo de menina, ainda cheguei a usar esse candeeiro aqui. Eu era muito feliz. Quando não tinha querosene, a gente sofria porque a gente ficava no escuro. O que fazia mais sucesso era quando tinha o querosene pra por. A gente colocava o querosene e ele funcionava, mas a gente era muito feliz nessa época. Hoje, a gente tem tanta mordomia e às vezes a gente reclama, reclama que a nossa roupa está amassada.
Nessa época que a gente usava esse ferro aqui, eu usava com muita dificuldade, porque eu era menina e morria de preguiça pra falar a verdade. Eu morria de preguiça de assoprar, colocar a coisa e assoprar. Era um trabalho porque levantava aqui, colocava aqui dentro o carvão e assoprava. E às vezes a gente apanhava pra fazer esse ferrinho funcionar. Era pesado e eu não gostava de fazer, não gostava de passar roupa porque o trem era pesado.
Eu também cheguei a fazer curso de datilografia. Quando surgiu essas máquinas, nossa… Parecia que era coisa de outro mundo. Como hoje, essas coisas novas que estão surgindo da tecnologia, são como se fossem coisa do outro mundo. Então essa máquina pra gente foi muito sucesso.
A gente foi criado naquele tradicionalismo. Meu pai era muito severo, muito correto. Nós fomos criados sem mãe, eu perdi minha mãe quando eu tinha 7 anos de idade. Nasci no Maranhão e tinha mais 8 irmãos. Ao todo, eram 9. E minha tia foi nos buscar lá da cidade do São José do Egito, que é lá no sertão do Pernambuco. Minha tia saiu do sertão de Pernambuco para buscar a gente no Maranhão.
O interessante é que nessa viagem, com aquele monte de menino, minha tia teve que levar todo mundo, foi preparada uma farofa de galinha que minha tia levou numa sacola de tecido, para todo mundo comer na estrada. Minha tia teve que parar pra fazer pousada na casa da minha madrinha. A meninada fez a festa com aquela farofa de galinha. Comemos a galinha toda e deixamos só a farinha… Quando a minha tia foi procurar dentro do carro que era o transporte para voltar, só tinha farinha. Minha tia falou: “Agora vocês vão ter que comer a
farinha toda porque vocês acabaram com a galinha.”
Meu pai era um homem muito tradicional. Na faixa dos 17 anos, a gente saía para as diversões e a gente só saía acompanhadas das nossas primas. E eram as primas que se valessem com a gente. Era aquele cuidado… E meu dizia: “Quando é 22h da noite, quero vocês de volta. Eu vou cuspir no chão, quando secar, quero vocês de volta.” E meu pai era pontual, 22h ele ia atrás da gente.
Tinha uma boate chamada Bambuzinho. A gente só dançava e brincava, não bebíamos. Minha prima ia namorar, e a gente ficava de vela. Quando a gente estava no bem bom, aparecia meu pai. Ele fazia só um gesto com o dedinho, e a gente ia. Ele nem falava nada, a gente só ia atrás, porque se falasse alguma coisa: era peia. Mas era assim que a gente foi criado e éramos muito felizes, não era?