Objeto: bucha vegetal, máquina de datilografia e pilão
Ano: 2024
Região: V. Telebrasília
História:
Eu não poderia começar, antes de relembrar os objetos, sem agradecer. Gratidão! Porque aqui nessa sala tem as minhas gerações passadas, também. Tem a minha mãe, tem a minha tia, tem a minha outra tia, -”adotiva”- Ó, o “adotivo” é por conta dela. Eu não ia falar que era “adotivo”, mas se ela acha assim, está bom. E lembrar também, né, dos anteriores. Me emociona muito. Porque aqui tem história da minha vó, a mãe da Gil, né? Tem a história da minha mãe que até hoje costura e que fazia minhas roupas enquanto eu trabalhava. E, então, quer dizer, é agradecer.
Aqui na minha pele tem os povos originários, que na época que a gente era criança, a gente chamava de índios, mas hoje não pode mais falar. São os povos originários, mas na minha época era índio. Então, aqui eu tenho o índio, eu tenho o branco e eu tenho o negro. É uma miscigenação louca, e aí nascem mulheres fortes, mulheres que também não são entendidas porque ela quer fazer, ela quer mergulhar, ela quer ajudar, ela quer criar. E a gente entra nessa batalha, nessa guerra, quando a gente vem para esse mundo. É aqui que a gente se descobre adulta porque, antes disso não, tudo é maravilhoso, é adolescência. Ser criança é o cair, é o quebrar, é o apanhar.
Aqui nessa mesa, tem um projeto belíssimo, tem um resgate. Essa conversa é um resgate, porque resgatamos tantas histórias. Não é só uma história, não é só um objeto, são vários, como estão aqui.
Aqui, com essa bucha vegetal, lembro do meu marido, porque meu marido toma banho só com essa bucha e com sabonete Phebo até hoje. Eu também comecei na máquina de datilografia. No meu segundo emprego, eu fui fazer o teste e era numa máquina de datilografia Remington elétrica. Eu falei que estava acostumada, mas não com aquela elétrica. A pessoa falou “Não se preocupe, você tem cinco minutos para entender como é o processo dela”. Fui lá, fiz o meu teste e passei 40 anos nessa empresa. Mas não fiquei acomodada.
A minha avó só fazia tempero da carne, do feijão no pilão. Era tudo batido no pilão. Esse ferro de passar roupa lembra a minha avó, a mãe da minha mãe.
Vários objetos aqui fizeram parte, e fazem até hoje, da minha infância, da minha adolescência. E a gente resgata hoje com esse projeto lindo que trouxeram para cá. Ele é uma oportunidade que as outras pessoas lá fora, que não vieram, não vão ter. Agora somos nós aqui. Costumo dizer que todas nós somos vencedoras.
Gostaria de agradecer por esta oportunidade de eu estar aqui contribuindo com o social, pois acreditamos que podemos mudar vidas, que podemos gerar uma visão trezentos e sessenta graus. Cada uma de nós somos vencedoras, pois trazemos uma história de vida que agora é um resgate. E quando a gente ouve, vemos que aquela história, também faz parte da nossa infância e vida. Os eventos que a gente tem ido, de mulheres, são de mulheres que passaram por situações gritantes com homens, mas não são todos os homens que são ruins na vida, que maltratam as mulheres.
Temos que ter cuidado até de falar na defesa de um homem. Por isso eu não podia deixar de falar do meu avô. O meu avô ele era um artesão, mas sem saber, na época. Naquela época não tinha luz, não tinha poste de luz, não tinha eletricidade. Naquela época ele confeccionava as lamparinas, a ‘fifó’, mas então veio a eletricidade. Aí, o que que ocorre com ele? Ele não se reinventou. Ele sai desse mercado da lamparina e começou a fazer formas, vincas, mas chamam-se calhas. Ele era o único mais ou menos de vida que trabalhava com zinco. Fazia a reciclagem das latas de biscoitos e de manteiga, limpava a pintura e trabalhava com esse material. Queria fazer esse resgate do homem na nossa vida que era artesão e ajudava a cidade ser iluminada.