Objeto: ferro de passar e rádio

Ano: 2024

Região: Candângolândia

História:
Tem muita coisa lá em casa que é antiga, antigo mesmo. Eu tenho colcha de cama que eu fiz no nordeste, bordada todo na máquina aberta. Eu tenho uma rosa e tem uma branca, viu? E tem fronha, tudo que eu bordei. Eu! Agora não sei mais nada não, mas eu fazia tudo isso. Pano de prato daquele ponto de cruz que eu sabia fazer. Agora eu não sei fazer mais nada, mas tudo isso eu fazia.
Eu cheguei e trouxe ferro do nordeste, cheguei passando roupa, mas o ferro era muito pesado. Eu já tava pagando gente pra passar roupa, não tava aguentando mais nem pegar no ferro pesado demais.
Tenho muita coisa lá em casa, coisa minha velha, antiga… Eu tenho aí dentro, também um rádio de muitos anos, desde o começo da associação. Há cinquenta anos eu tenho esse rádio lá dentro e ele tá aqui, tá bem aqui. Me deram esse rádio e tocávamos aqui na associação, depois desfizemos dele, e não botamos o rádio pra tocar mais.
Tem muita coisa, minha filha, lá em casa, coisa que fiz quando era nova. Muita coisa… Ainda hoje tem uma colcha grande de cama toda rosa bordada toda na máquina, e eu tenho uma branca. Tem tudo lá em casa. Um bocado de coisa. Se eu fosse trazer minhas coisas, enchia essa mesa aí só de coisa velha.
Nem lembro mais quando cheguei na Candangolândia. Só de associação já tem uns 50 anos. Cinquenta anos eu já estava aqui há muito tempo. Cheguei aqui só tinha mato. Eu fiquei no bandeirante no começo e depois que eu vim para cá. Só tinha mato no Bandeirante.
Já tinha inaugurado a capital, mas estava bem no início. Teve coisa boa e coisa ruim, mas a gente tá vencendo, vencendo tudo. Estamos aqui juntos, vencendo a tempestade. Faz muitos anos que eu cheguei aqui, minha filha.
Eu cheguei aqui só tinha dois filhos. Uma mocinha que já tava com 13 anos e o outro, que é o Renildo, que não tava nem com um ano, ia completar um ano em outubro e eu cheguei em setembro. Ele já tem mais de 50 anos. Os dois nasceram no Piauí, em Água Branca.
Tive outro filho aqui que nem sabia que teria. A mulher falava: “É mulher.” e eu falava: “Não é não. É homem esse aqui. É homem, eu conheço.” – e era homem.
E é ele que tá me servindo, o filho que me trouxe aqui. Esse que mora na Ceilândia, esse que é meu filho que vem me buscar daqui a pouco pra ir pro médico. Esse que é meu filho de paixão, até hoje não sei… Ah, mas é tão bom pra mim, tão bom pra mulher dele, tão bom pros filhos.