Objeto: vários

Ano: 2023

Região: Planaltina

História:
Quando olhei aquele balde, eu lembro que a gente criança, lá na fazenda da minha vó, a gente buscava água no rio com o balde. A gente trazia o balde e colocava água dentro da moringazinha de barro. Todos compartilhavam, bebendo água. A gente debruçava o copo na ponta daquela moringa, o copo de alumínio. Isso fica tão enraizado dentro da gente que, dentro da minha casa, não tem filtro elétrico. Até hoje, todas as pessoas que chegam na minha casa falam: “Nossa, mas aqui na sua casa vocês tomam água no filtro de barro?”. É! E meus filhos só vão tomar água no filtro de barro.
Quando a gente chegava na casa da minha avó, meu avô tinha um terço bem grande com as bolas enormes de madeira colocado com um crucifixo grande. Ele falava que aquilo era a proteção da casa deles.
Quando a gente ia tomar banho, não podia tomar banho se não usasse essa bucha vegetal, porque o pé não ficava limpo o suficiente sem ela. Porque a gente brincava muito descalço, brincava demais no curral, então, tudo aquilo ficava embaixo da unha, ficava no corpo, na roupa. Então a gente só podia tomar banho com a bucha vegetal. Meus pais olhavam se tivesse tomado banho, se tivesse usado essa bucha. Inclusive hoje, na roça do meu pai, tem uma plantação de bucha e até hoje eu tomo banho com essa bucha, e meus filhos também só tomam banho com essa bucha. Eu falo: “Se vocês não tomarem banho com essa bucha, vocês não estão limpos”. Eu falo: “Ana Julia, você tem que esfregar o rosto com a bucha porque ela deixa a pele bem esfoliada”. Sempre tenho um sacão bem grandão de bucha dessas.
Quando minha mãe foi no Moquém, trouxe uma bacia igualzinha a essa. A minha é igual a essa branca. É pra amassar o biscoito, porque o biscoito não pode ser amassado em qualquer bacia. Tem que ser numa dessas, porque fica gostoso.
Lá na fazenda a gente usava essas lamparinas, e era muito legal porque a gente podia sentar e contar as histórias dos lobisomens, do homem que vinha no rio, o Zé Perna-de-Pau. A gente ia pegar água e não podia demorar no rio por causa dele. Acho que era uma forma de eles controlarem as crianças porque, senão, a gente ia brincar, ia tomar banho e esquecia de voltar com os baldes de água. “Então vocês vão logo e volte, porque se o Zé perna de pau aparecer no barranco, ele carrega vocês.” Meus primos, na época das férias, corriam lá pro barranco escondidos, atrás da gente. Quando a gente descia pro rio pra buscar água, eles ficavam gritando “Lá vem, lá vem Zé perna de pau!”. A gente corria com medo e vó brigava, porque o balde não estava todo cheio. E tinha que voltar com o balde cheio senão a gente tinha que pegar de novo. “Vó, o Zé perna-de-pau estava aparecendo pra gente”.
Essa máquina fotográfica, o pai tem uma idêntica a essa, porque ele colocava as fotos na casa dele, lá tem um monte de quadro dessas fotos antigas. Ele perguntava: “Nani, quantos anos você tem nessa foto, oito?” Eu dizia: “Pai, é dez?” “Não, é oito! Foi naquele dia que eu tirei o filme da máquina.” Porque tinha os filmezinhos que você tirava e levava pra revelar.
Os binóculos meus pais tinham também. A gente via as fotos neles, mas eu não tenho nenhum desses guardado. Ontem ainda eu falava para o meu filho: “João, você tem que fazer inglês”. Porque era o meu sonho fazer inglês. Não sei nada de inglês. Na época minha mãe falava: “Você não vai fazer em inglês, você vai fazer datilografia porque quando você terminar o curso você vai ser empregada na datilografia.” Acabou que eu não fiz inglês e nem atuei na datilografia, mas o papel do curso está guardado. Fiz o curso nessa máquina, que você tem que apertar com muita força pra gente poder escrever. Naquela época, eles tinham essa preocupação de a gente estar trabalhando tão logo que terminasse o ensino médio, para poder ter um emprego.
Eu só descasco a laranja com a casca inteira. Toda a minha laranja… Minha vó falava: “Quem de vocês, meus netos, descascar a laranja com a casca completa, é a pessoa que consegue manter uma família erguida.” E eu trago isso pros meus filhos, e eles falam: “Porque você está pendurando a casca?”
A minha família é daqui de Planaltina. Uma família muito tradicional, então a gente tem muita história. Toda essa memória aqui dentro fica adormecida.