Objeto: rádio
Ano: 2024
Região: Candângolândia
História:
Eu vou pôr os óculos, porque se eu chorar não quero que ninguém me veja chorando.
Esse rádio aqui, ele lembra meu pai. Quando eu era pequena, meu pai, que trabalhava na Embrapa, tinha costume de chegar em casa e assistir todo dia a Voz do Brasil. Pequenininha, eu sentava junto com ele e gostava de escutar.
Eu nasci em 1969 e estava começando Brasília. Tinha inauguração e tal, e aquilo me encantava. Aquele negócio dizia “Na capital do Brasil, Juscelino Kubitschek vai inaugurar tal…” (imitando o rádio falando). Então, aquilo era uma curiosidade. Eu falava para ele desde pequena “Pai, eu quero ir embora, eu quero ir embora.” Eu nasci no Belém do Pará e meu pai falava “Mas minha filha, você não conhece ninguém…”
Aí com 14 anos eu tinha um sonho, eu sonhei que tinha uma festinha no meu quarto, aquele negócio todo, umas coisas de criança. Eu falei para o meu pai assim “Pai eu vou para Brasília!”. Aí, nós escutamos a inauguração e eu sempre tava assim junto com ele, acho que ele me ensinou umas técnicas, umas estratégias, e eu falei assim: “Vou procurar alguém, vou trabalhar e vou embora para Brasília”.
Comecei a olhar na cidade quem tinha emprego para dar. Pedi pro pai de um amigo meu, para que eu virasse mecânica de Multilith, ajudante de mecânica, para limpar as peças de multilith. Multilith é aquelas máquinas de gráfica, que hoje não faz mais, de jornal. Aprendi e, na hora que eles pegaram o bonde para cá de ônibus, eu peguei carona e vim embora.
Aí eu falei: “Vou para Brasília.” e meu pai deixou ir. Aí meu pai: “Você não conhece ninguém, minha filha.” Mas eu sonhei com a Brasília, e eu vim embora.
Cheguei aqui e fui trabalhar na gráfica como ajudante de mecânico, fiquei 10 anos sem ir em Belém. Eu tinha 17 anos, mais ou menos, quando eu cheguei com essa turma/povo. Meu pai falou: “Leva minha filha, mas devolve”.
Na hora de ir embora com o povo, eu disse: “Eu não vou… Vou ficar!”. E eles diziam: “Ah, seu pai vai me matar!”. E eu disse: “Mas eu vou ficar.” E eles foram embora. Eu liguei pro meu pai: “Pai, eu vou ficar!”.
Então, nessa história de ficar, esse rádio me lembrou muito essa história do meu pai, dessa trajetória de vim pra Brasília. E ai, eu queria cantar para vocês uma música que tem a ver com o rádio. Porque meu pai não me batia, ele era muito tranquilo e, antes de eu vir embora, ele sentou na mesa e falou assim: “Escuta essa música aí minha filha…”
A música é aquela do Cartola: “Preste atenção querida, o mundo é moinho, vai triturar teus sonhos tão mesquinhos, vai reduzir as ilusões a pó.”
Então, eu bati o olho no rádio e veio a música, a história toda… Então, ele falou: “O mundo é um moinho” e é um moinho, mas eu to aqui em Brasília e eu gosto daqui. Esse rádio me lembrou isso.