Objeto: lamparina e ferro de passar
Ano: 2024
Região: Candângolândia
História:
A lamparina sujava muito as paredes e na casa da minha mãe só tinha lamparina. Quando a gente ia dormir, antes da gente dormir, ela fazia a gente apagar das paredes a cinza preta. Sofrimento, viu.
Vou contar do ferro, também: Passava roupa, muita roupa, e minha mãe dizia “Tem que assoprar bastante!” Além de passar roupa ainda tinha que assoprar para acender a brasa.
Tenho outra história, mas eu vou chorar e eu não quero chorar.
Tenho 49 anos de Candanga e me casei muito nova. Tive filhos, mas perdi um e fiquei viúva aos 27 anos. Porém, casei de novo.
Tive um filho com esse último casamento, mas com 5 meses ele teve meningite. Ele faleceu com 27 anos, e eu cheguei até brigar com os médicos, porque eles diziam “Seu filho só vai viver até 17 anos”. Porque ele só enxergava; ele não andava, não falava…
Eu cuidei 27 anos, me dediquei ao meu filho por 27 anos. Eu não saia de casa, eu não viajava. Meu filho era a coisa mais linda. Eu levava ele no dentista e, nossa, por 27 anos ele não teve uma cárie.
Os médicos diziam “Seu filho vai viver só até 17 anos” e ele viveu 27 anos. Isso faz 14 anos. Depois o pai dele também faleceu. Meu filho era muito apaixonado pelo pai, muito, ele beijava muito o pai, e o pai era muito apaixonado por ele.
Eu choro, mas não é de sofrimento, eu não sinto que eu sofria, eu não sofria. Eu não tinha vida, eu nem saía de casa, ninguém nem me via aqui na Candangolândia, porque era só cuidando do meu filho por 27 anos. O quarto dele, eu passava até álcool nas paredes. Ele não tinha uma ferida, nada, nada, nada. Era um menino lindo, lindo, lindo. Choro, porque foi a perda de um filho, quem não chora? Mas eu sei que ele tá no céu, olhando para mim, cuidando de mim, eu tenho certeza disso, porque ele era um anjo.