Objeto: canivete, laranja e fotos
Ano: 2023
Região: Planaltina
História:
Não é uma coisa antiga, mas faz parte da história que eu vou contar. Todo mundo sabe que isso aqui é uma laranja. E isso, uma casca de laranja tirada inteira. Com 39 anos, o meu pai faleceu, minha mãe juntou seus sete filhos e veio embora para Brasília. E o que me traz a memória, é uma memória muito gostosa, e eu até me emociono e hoje eu estava até nervosa, é um canivete parecido com esse, uma coisa bem antiga.
Meu pai pegava um canivete parecido com esse [mostra um canivete] e ia para debaixo de um pé de manga, porque laranjeira não dava sombra. Ele juntava muitas crianças, meus irmãos e os filhos dos vizinhos, e apanhava muita, muita laranja. Então sentava as crianças, e ele sentava no meio e começava a descascar essas laranjas com tanto carinho, com todas as cascas inteiras, e dava para gente ficar balançando, arrebentando e brincando, jogando um no outro.
Naquele tempo, os pais tinham dificuldade de falar para os filhos “eu te amo”, não é como hoje que a gente fala eu te amo pros nossos filhos toda hora. Os pais de antigamente, pelo menos o meu, eram um pouco chucro, eles não falavam isso com palavras. Falava por gestos e esse foi o gesto de carinho que ele encontrou. Com esse canivete, ele abria o buraquinho bem pequenininho, assim olha [mostra um buraco triangular pequeno no topo da laranja]. Olha só o carinho, amolecia essa laranja e passava para cada um. Era só pôr na boca apertar e jogar a semente fora.
Com aquilo eu percebia o quanto ele queria dizer “eu te amo minha filha e se eu tiver a oportunidade vou cuidar de vocês”. Pena que ele não teve essa oportunidade, mas isso ficou na minha memória, uma memória tão gostosa que me traz muita emoção. Eu sou apaixonada pelo meu pai, e como eu queria ter meu pai, mas eu o tive por tão pouco tempo.
Hoje eu sou mãe, sou vó e bisavó. Eu trouxe isso pros meus filhos, esse carinho, trouxe pros meus netos. Hoje eu descasco laranja e dou pros meus bisnetos chuparem e contarem quantos caroços tem. De outra forma, estou dizendo pra eles “isso é um legado que estou deixando, isso é um amor, é um carinho”.
Eu trago essa história e vou passando de geração em geração. Quando eu não existir mais, um dia quem sabe, em algum lugar, vai ter um filho, um neto ou um bisneto contando a mesma história que eu ensino: descasque laranja pros seus filhos, descasque cana. Isso é amor, é carinho. E outra coisa, lembrando que isso quase não existe mais.