Objeto: máquina de costura

Ano: 2023

Região: Bandeirante

História:
Eu sou a Dulcineia. Eu tinha duas histórias pra contar, mas não vou contar não. Vou contar essa, porque me lembrei muito da minha mãe. A outra é do meu pai, mas vou contar essa. Quando foi no dia do meu batizado, os meus padrinhos deram uma máquina de costura pra mim de presente, né? Mas a mamãe ficou usando pra ganhar uns trocadinhos. Pra encurtar mais a história: ela continuou cuidando, zelando dessa máquina.
Quando eu estava moça, garotinha, ela continuava costurando. Não sei quem lembra da época da novela o Direito de Nascer… Um certo dia, uma senhora chegou lá em casa e disse “Dona Teone, a senhora ficou sabendo que a vizinha fulana-de-tal está se separando do marido, porque ela estava costurando pra fora e o marido dela deu uma taca nela?” Aí eu disse, no meio da conversa: “Vixe maria, pois minha mãe costura pra fora direto e meu pai nunca bateu nela.” Apanhei, levei tanto cascudo pra não me meter mais nas conversas dos adultos. Minha inocência era tamanha, que eu não sabia o que era costurar pra fora. Mas costurar pra fora, lá no Nordeste, era traição e eu não sabia. Apanhei pra não me meter nas histórias dos adultos.
A do meu pai foi assim: Lá no nordeste, tem aqueles caminhões que levam leite. Neles vêm aquelas senhoras com a roupa parecida com a da Lurdes. Aí elas descem do carro. E meu pai sempre ficava de manhã andando na calçada, pra lá e pra cá, vendo chegar esses caminhõezinhos de leiteiro. A mulher, quando desceu, deu um pulo. Quando ela pulou, o vestido dela subiu. E ela perguntou pro meu pai: “O senhor viu a minha ligeireza?”E ele disse: “Não sabia que tinha mudado de nome, não.”