Objeto: ferro de passar, lamparina, bacia

Ano: 2023

Região: Bandeirante

História:
Bom, eu pedi para Moarcir trazer, pois está na casa dele. É um tipo de prato com meu avô e a minha avó, meu pai e minha mãe.
Bom, eu me chamo Iria e moro há 37 anos aqui no Bandeirante.
Colega pergunta: – “Conta por que é Iria?”
Bom, eu não sei por que eu sou Iria, mas eu acho que meu pai passou lá para o lado de Portugal, na Cova da Iria, que eu tive oportunidade de conhecer. Lá tem um vale onde Nossa Senhora apareceu para as crianças, e lá está: “Aqui está a Cova da Iria”. Meu nome é assim, não tem acento, não tem nada.
Eu nasci em 1934, numa casa que tinha 65 pessoas, nove casais. Cada casal tinha seus sete, oito, nove filhos. Nós éramos oito irmãos, dormíamos todos no mesmo quarto. O casarão era muito grande, o quarto era como se fosse essa sala aqui. A minha avó era catequista de dentro da casa, nela nasceram 84 netos.
A comida era assim: 8h30 da manhã era o almoço; 11h30 era o café do meio-dia; 15h levava a janta na roça para os homens; e às 18h horas da tarde comíamos uma fatia de pão e um copo de leite.
Meu avô e minha avó eram muito religiosos… Todo mundo ajoelhava para rezar o terço antes de dormir. Ninguém ia se esconder porque não queria rezar, todo mundo estava ali, e assim a gente foi criado.
Nessa casa, matava-se um porco por semana. Nessa casa, comia-se muito angu de fubá com polenta. Eu era “tangedor” dos perus, com 7 anos. Tinha uns 80 perus, levava no matinho para pastar e, de tarde, dava uma assobiada e os perus vinham para casa. Cada criança tinha a sua função. A avó me queria muito bem. Nós dormíamos em colchão de palha, não existia esse colchão de espuma bonitinho que tem hoje. Rasgava palha de milho, fazia quatro buracos num colchão e enchia de palha, e lá a gente dormia. Toda a família.
Nós éramos 34 crianças que iam à escola todos os dias. A minha avó era catequista de dentro de casa. O padre vinha celebrar missa dentro de casa, na nossa casa. Minha avó chamava-se Carolina. Ela nasceu em 1878. Meu avô nasceu em 1856. Meu pai nasceu em 1900, na Itália. Minha mãe nasceu aqui no Brasil, em 1906. E nós éramos oito irmãos. Quatro já foram, quatro estão de pé. Eu tenho 89 anos, sou a mais velha dos que ficou. Tenho três irmãos que é uma benção, moram no estado do Paraná e todo dia a gente se fala.
Então, a nossa natureza é não parar de trabalhar, sempre estar se movimentando em alguma coisa. Oração, nem pensar, todos os dias nós temos o horário da nossa oração. Pode correr, pode… aquele horário é falar com o Papai do Céu. Portanto, nessa família nasceram dois padres, um primo e meu filho.
E o que a gente queria dizer para vocês era: ferro de passar roupa, era lamparina e tomar banho na bacia. Ninguém tinha chuveiro, coisa nenhuma. Privada? Tinha os pinicos que faziam o xixi e, de manhã cedo, levava embora. Não existia essa mordomia que tem hoje, e o povo não está satisfeito. Eu tenho cinco netos advogados, tenho uma neta que trabalha com dois juízes, e assim mesmo ela reclama da vida, meu Deus.
-“E onde que era? Onde que era essa casa?”
Estado de São Paulo, Torrinha, pertinho de Jaú. Uma hora vou trazer o livro e o prato da minha querida avó. Essa casa tinha 12 cômodos de dormir, tinha uma sala que cabia 62 cadeiras numa mesa que ia lá… E a gente saía para fotografar e nunca viu tanta criança.
-“Esses casais que moravam eram todos da família?”
Todos filhos. A minha avó teve 11 filhos e nove ficaram dentro da casa e geraram 84 netos. Nessa casa, minha avó era parteira. Nessa casa nasceram 84 netos, eu sou uma delas. E ela que fez o meu parto.
-“Como é que era o nome da sua avó?”
Carolina Trevisoli, ela nasceu na Itália e viajou dois meses num navio a vapor. Esse navio a vapor para poder vir no Brasil. Ela tinha 9 anos e meu avô tinha 16. As famílias se encontraram dentro do navio. Com o tempo, em Santos, pegaram com a fé de colono, aí foram se conhecendo e, com o tempo, se casaram.
Então, eu agradeço a Deus pela família que eu tive. Eu ainda tenho uns primos iguais a mim, porque o resto já foi tudo. Mas eu quero agradecer a você, querida, essa beleza que vocês trouxeram para que a gente lembrasse como era tomar banho na bacia…